Imagem:
Representação gráfica, plástica ou fotográfica de pessoa, animal, paisagem, divindade, fenômeno, objeto...
...imagens são muito importantes e muitas vezes falam mais do que as palavras.
O Paradigma da Imagem - Juliana Zucolotto
O artigo traz um estudo da imagem como linguagem auto-referente da sociedade na atualidade. Baseado na idéia que a linguagem contemporânea é estruturada pelo pensamento moderno que quantificou, dividiu e ordenou os saberes, as culturas e os sujeitos, discute algumas das condições que aprisionaram as imagens semântica e esteticamente: o olhar perspectivado introduzido a partir do Renascimento, a aceleração dos ritmos nos centros urbanos impostos pela industrialização, a construção identitária dos indivíduos através dos objetos e o advento da fotografia que inaugura uma produção de imagens especulares possibilitando a construção do discurso da verdade técnico científica. Por fim, constata que a imagem contemporânea é um instrumento que aprisiona a imaginação à linguagem moderna, onde as novas tecnologias de produção de imagens reproduzem e legitimam seu discurso, gerando um retorno a si mesmo.
Palavras-chave: Imagen, Olhar, Identidade, Fotografia, Linguagem.
Apresentação
As imagens dominam nosso cotidiano e a comunicação contemporânea está totalmente calçada na grande produção de imagens. Porém, nem sempre as imagens tiveram esse “poder” de produzir uma leitura inequívoca do que mostra, ultrapassando diferenças culturais, econômicas e históricas. De maneira oposta a condição atual, as imagens já foram proibidas e perseguidas pelas religiões monoteístas ( iconoclasmo endêmico), pois estas concebiam as imagens como pressuposto de uma ambigüidade interpretativa. Porém, se as imagens não tinham o poder de objetivar a comunicação, tinham um outro mais interessante, o de inspirar mudanças. Foi a imagem artística em perspectiva que introduziu o pensamento mensurável dos espaços e com ele uma revolução de valores. Contudo, o trajeto percorrido pelas imagens da cultura Ocidental à contemporaneidade deixa na atualidade, uma lacuna nesse papel de insuflador de mudanças. Então, como pode a enorme quantidade de imagens que norteiam nosso comportamento e ilustram nossa comunicação perder algo que estava na sua essência?
É a partir da homogeneidade estética e discursiva que caracterizam as imagens da atualidade que se constata a sua vocação perdida, a despeito da proliferação e da “democratização” experimentada com a crescente disseminação de novas tecnologias e técnicas que possibilitam a sua ampla produção e reprodução, mas que não refletem uma ampliação ou mesmo transfiguração no conteúdo que apresenta, e sim, as inumeráveis possibilidades de se mostrar o mesmo. É como se a “realidade velada” da imagem fosse abolida e a contemplação não surtisse nada além de uma única descrição, que poderia ser feita “sem erro” por qualquer um que a olhasse.
Na leitura atualizada das imagens, o que se observa, é que a quantidade não reflete uma qualidade, ou pior, a qualidade contemporânea é definida pela quantidade. Essa lógica quantitativa que impregnou a linguagem é o principal fator que permitiu que as imagens se aprisionassem no sentido e na estética. Desta forma, a linguagem visual contemporânea nada mais é do que uma instrumento da modernidade que, ao avesso da história das imagens, não suscitam ambigüidade ou diferentes interpretações ou reflexões que apontem para uma transmutação imaginativa, e sim sofrem um reducionismo semântico estético, transformando-se na mais objetiva das linguagens. Funcionando como categorias de estímulos que simplificam e uniformizam a mensagem, configuram-se como a linguagem auto referente da sociedade atual.
Em diferentes culturas, a mediação de imagens circunscritas ao sagrado, por seu caráter simbólico, propicia uma espécie de diluição dos limites entre signo e objeto, fazendo crer que a experiência da imagem converta-se na experiência do próprio sagrado.
A disposição do espírito humano de estabelecer esse compromisso mágico com o universo das imagens evidencia-se desde o paleolítico, mesmo que qualquer retroprojeção a um período pré-histórico imponha alguns riscos quanto à reconstituição do comportamento de nossos ancestrais. Todavia, é com segurança que pesquisas, como a do paleontólogo André Leroi-Gourhan (s/d), atestam a presença da centelha religiosa desde o paleolítico, além de gerar suposições sobre os temas mitológicos das imagens de Lascaux e Altamira. É este caminho trilhado por Edgar Morin, em “O Paradigma Perdido?”, ao tratar da gênese do imaginário humano e do compromisso mágico estabelecido com o homem.
Assim, o mundo exterior, os seres e os objetos do ambiente, adquiriram, com o Homo sapiens, uma segunda existência, a existência de sua presença no espírito fora da percepção empírica, sob a forma de imagem mental, análoga à imagem que forma a percepção, visto que não se trata senão dessa imagem relembrada. Daqui em diante, todo significante, incluindo o sinal convencional, transportará potencialmente a presença do significado (imagem mental), e este último poderá confundir-se com o referente, isto é, com o objeto empírico designado. São, evidentemente, o desenho e a pintura “realistas” que levam à perfeição a adequação entre o significante, por exemplo, um bisonte, a imagem mental do bisonte e o bisonte empírico (s/d: 99).
Embora os comportamentos mágicos não sejam de todo fossilizáveis, Morin acredita que independentemente da cultura e da época, “os fenômenos mágicos sejam potencialmente estéticos e que os fenômenos estéticos sejam potencialmente mágicos”. Tal argumento põe um fim na polêmica discussão sobre as intenções puramente estéticas ou puramente mágicas nas imagens pré-históricas.
A frase de Morin nos serve também como ponto de partida na busca de indícios mágicos nesta comunhão selada entre o homem contemporâneo e as imagens midiáticas. Neste sentido, o objetivo deste paper é procurar aproximações deste tipo de mediação mais arcaica em fenômenos midiáticos da atualidade, considerando a possibilidade do que denominamos “transparência” das imagens. Por transparência entendemos a aparente ausência mediadora do suporte técnico da imagem, de maneira que o objeto por ela representado se faz sentir imediatamente, produzindo efeito direto e significativo.
O ocultamento do signo pelo referente manifesta-se sobremaneira no universo da religião. Neste domínio, toda consideração sobre as imagens carrega a tensão sobre qual é a sua natureza e qual deve ser o seu papel diante do Sagrado. Especialmente, na tradição judaico-cristã, a tensão emerge desde o interdito da Lei Mosaica a respeito de se fazer imagens de escultura sobre o que há nos céus, na terra e embaixo da terra. Dar visibilidade ao Sagrado através das imagens, tornar o Divino, de alguma maneira, apreensível aos olhos, foi uma prática adotada pelo Cristianismo, mais fortemente a partir do quinto século, mesmo com a reprovação dos primeiros teólogos, que temiam a adoção de costumes pagãos no seio da Igreja. Neste contexto, é bastante significativa a frase de uma mulher do sexto século, dona de uma imagem miraculosa de Cristo chamada Kamuliana: “Como posso adorá-lo se ele não é visível, se não o conheço?” (Belting, 1996: 145)2.
O que sempre esteve em jogo no Cristianismo foi o status semiótico da imagem. Seus limites em relação ao objeto representado nunca foram precisos no âmbito da religião, fazendo levantar posições diversas sobre se a um ícone dever-se-ia prestar culto. De um lado, espalhava-se no povo (em Bizâncio, especialmente), a atitude de tomar a imagem como algo estreitamente vinculado ao poder divino. Através delas, Deus se manifestava e à imagem era conferida uma porção daquilo que ela representava. De outro, não faltaram aqueles que tentaram distanciar signo e objeto, denunciando a falácia do poder das imagens, tentando restaurar a interdição mosaica. Esta última postura foi levada às últimas conseqüências, pelo menos, em dois célebres períodos de iconoclasmos (quebra de ícones, literalmente). O primeiro deles ocorrido no século VIII, no Império Bizantino, que foi superado pelo Segundo Concílio de Nicéia, primeiro documento oficial da Igreja que encorajava o culto às imagens. O segundo teve a Europa ocidental como palco e foi deflagrado pela Reforma do século XVI, sob os auspícios de Zuínglio e Calvino (Lutero não era iconoclasta). A fúria dirigida às imagens em Genebra (exposição de ícones sem cabeça em praça pública) evidencia mais do que o desejo de superação do poder das imagens, mas também o ímpeto de castigá-la, o que talvez seja uma forma de encantamento às avessas. De qualquer maneira, o protestantismo representou a deposição da imagem pela palavra.
1. Transparência e Imagens Simbólicas
Na dimensão mágico-religiosa, a transparência da imagem se assume por seu caráter simbólico. Símbolo aqui deve ser compreendido no seu aspecto mais radical de proximidade entre o aspecto material do signo e o sentido que ele carrega. Assim, é oportuno retomar a origem da expressão grega symbolon (lançar juntos). O sentido original designa um objeto partido ao meio, cuja posterior união entre suas duas metades servia de senha para o estabelecimento de um novo contrato. Nesta perspectiva, a imagem simbólica implica uma união profunda e perfeita entre a metade imagem e a metade objeto. Sela-se uma relação em que a imagem é tomada como parte pelo todo. Ela se constitui, portanto, pelo seu poder revelador, mágico e epifânico. Sem nos lançarmos na tentativa de dar os contornos do conceito de símbolo, uma vez que este não é o objetivo deste trabalho, é apropriado dar voz ao estudioso francês Gilberd Durand:
Dado que a re-presentação simbólica nunca pode ser confirmada pela representação pura e simples do que ela significa, o símbolo, em última instância, só é válido por si mesmo. Não podendo figurar a infigurável transcendência, a imagem simbólica é transfiguração de uma representação concreta através de um sentido para sempre abstrato. O símbolo é, pois, uma representação que faz aparecer um sentido secreto, é a epifania de um mistério (1993: 12).
Gilbert Durand também denuncia todo esforço da civilização ocidental em esvaziar as imagens simbólicas através de uma série de iconoclasmos, mais sutis do que aqueles que já citamos. O exemplo mais evidente seria o cientificismo extraído do cartesianismo que, de certo modo, orientou todo pensamento científico moderno, impôs limites rígidos à construção do conhecimento e relegou a arte (terreno fértil às irrupções simbólicas) à condição de ornamento ou divertimento. É em tom melancólico que Durand ainda hoje observa este panorama: “E na anarquia pululante e vingativa das imagens que sutilmente varre e submerge o século XX, o artista procura desesperadamente ancorar sua evocação para lá do deserto cientista da nossa pedagogia cultural” (1993: 23).
2. O Vazio das Imagens Cotidianas
O esvaziamento das imagens pode também ser detectado pela alta exposição das imagens midiáticas. Paralelamente à sucessão dos iconoclasmos, observamos, como já sinaliza Durand com a “anarquia pululante e vingativa das imagens”, um acelerado desenvolvimento técnico das mídias visuais. A disseminação e os usos sociais dos mais diversos suportes técnicos de informação fizeram com que o século XX mergulhasse em um oceano de imagens. Em que medida o excesso significa também a perda de símbolos diretores é um dos questionamentos suscitados por Norval Baitello Júnior, no texto “Ocidentação: a perda dos símbolos diretores e o esvaziamento das imagens” (no prelo). Walter Benjamin sinalizava esta situação em seu famoso ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, ao tratar da perda da aura em uma obra de arte projetada de antemão para a reprodutibilidade, bem como pela ascensão do valor de exposição sobre o valor de culto.
Com a oferta excessiva de imagens no cotidiano do homem contemporâneo, inverteu-se o movimento na relação entre imagem e olhar. Este encontra cada vez menos situações em que é convidado a mover-se, perscrutar, projetar-se sobre a superfície. Pelo contrário, a onipresença midiática figura-se como um turbilhão de imagens que avança e colide com a órbita ocular. A violência da colisão só pode ser amortecida pela recusa, pelo fechamento dos olhos, enquanto estes esperam em vão por paisagens desmediatizadas. O filósofo alemão Dietmar Kamper descreve uma situação de padecimento dos olhos: “Os olhos já não acompanham; seja pela abundância de imagens, seja pela acelerada aparição e desaparição das coisas (...). A órbita ocular (...) tornou-se estúpida. Quase tudo passa por ela, mas ela não mais se detém ou não retém mais nada” (1997: 132).
Na internet também encontramos sites formados unicamente de imagens, que podem ser lidas e utilizadas de acordo com cada ser. Confira:
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Comments (1)
Anonymous said
at 12:24 am on Oct 9, 2006
Adri, só agora descobri esta pg. Era o que estava faltando. Coloquei algo sobre a origem da palavra imagem na página principal. Que tal juntar tudo aqui,o importante é que seja uma produção nossa, que esteja clara e passe nosso entendimento, sem desvirtual nossas leituras.
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